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Equipa Multidisciplinar de Apoio Educativo em Oeiras Notícias

18/05/2020

O Município de Oeiras continua a investir fortemente no desenvolvimento de uma Política Educativa que responda às reais necessidades das escolas e que reduza muitos dos problemas que concorrem para o insucesso escolar no Concelho. O Projeto-Piloto Equipas Multidisciplinares de Apoio Educativo do Município de Oeiras (EMAE-MO) surgiu da necessidade de uma intervenção interdisciplinar e multinível, centrada no trabalho dos professores e na sua relação com o grupo-turma e com o aluno, envolvendo as respetivas famílias no projeto educativo. O Projeto-Piloto EMAE-MO,  que tem como  principal objetivo combater o abandono e insucesso escolar, com especial incidência no 1.º CEB,  é uma iniciativa do Departamento de Educação que assenta no paradigma de uma escola inclusiva, uma escola com uma cultura mais aberta, flexível, que vê o aluno em todas as suas dimensões humanas e que o coloca no centro da organização do processo de ensino-aprendizagem, uma escola que dá resposta aos desafios do século XXI. Para atingir este paradigma, há mudanças importantes e desejáveis que deverão ocorrer em vários domínios: institucional e organizacional, metodológico, pedagógico e curricular, conceptual e formativo.

Este piloto colabora com a Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva, do Agrupamento de Escolas de Santa Catarina (AESC), e conta com a CERCIOEIRAS, a Associação Sociocultural e Artística Sem Tábuas e a Escola de Música Nossa Senhora do Cabo, como parceiras. Participam, ainda, neste projeto entidades formadoras, como a Universidade Católica, o Clube PHDA e a Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas.  Esta Equipa Multidisciplinar é constituída por técnicos especializados das áreas da psicologia, psicomotricidade, serviço social, animação sociocultural, musicoterapia e técnicos das artes performativas, que tendo uma visão global do desenvolvimento, junta a componente técnica e artística, de forma a promover o sucesso educativo de forma holística.

Dentro do território de Oeiras, esta equipa atua, desde o início do ano letivo 2019/2020, nos JI José Martins e JI Roberto Ivens; nas EB Armando Guerreiro; EB D. Pedro V; EB João Gonçalves Zarco e EBS Amélia Rey Colaço, unidades escolares que constituem o AESC.

A abordagem desta equipa é sustentada numa intervenção de caráter inovador e criativo, assente no trabalho colaborativo e interdisciplinar, entre equipa EMAE-MO e todos os intervenientes do contexto escolar, na construção de uma escola verdadeiramente inclusiva, de todos e de cada um, para todos os alunos, tendo ela própria a flexibilidade para permitir a expressão dessa diversidade, usando a educação, o humanismo e a relação como instrumento.

Perante as contingências que vivemos atualmente, esta equipa não interrompeu a sua intervenção e, de modo ativo e reflexivo, procurou proporcionar ao AESC uma oferta multidimensional para fazer face às necessidades de dirigentes, professores, alunos e famílias.

Apresentou um Guia de Recursos Locais para responder às diferentes solicitações da comunidade (https://guiaderecursos1.wixsite.com/aesc); deu a conhecer propostas para gestão do stress; atividades de promoção de uma quarentena criativa; disponibilizou uma intervenção social; propostas de promoção do ensino à distância e intervenção colaborativa e articulou com as famílias na resposta aos problemas vivenciados durante o confinamento imposto pela pandemia COVID 19.

No âmbito da iniciativa "Oeiras Não Pára", foram entrevistadas as técnicas Joana Sousa e Mariana Coixão, dando expressão à atuação desta equipa:

«Os meus telefonemas começam com 'olá, sou a Joana, psicóloga da equipa multidisciplinar da Câmara e calculo que estivesse à espera deste meu contacto…' e do outro lado tenho um choro. Na sua maioria é isto que acontece. E é um choro que mostra o alívio por parte dos pais e que significa 'finalmente alguém me vai ouvir e me vai ajudar'. Porque a verdade é que com a escola a ir para casa, os papeis fundiram-se. Há muitas mães que sentem culpa porque têm um novo papel, papel este que os filhos não reconhecem, porque é o papel dos professores, que as mães e pais não reconhecem em si mesmo e que, na verdade, não foram trabalhados para o ter. E as famílias andam em tensão na gestão do trabalho, da escola, da relação doméstica». Joana Sousa é psicóloga e Mariana Coixão é assistente social e fazem parte da equipa multidisciplinar da CMO que atua no Agrupamento de Escolas de Santa Catarina. São os professores que, muitas vezes, identificam famílias que, nesta altura, estão mais fragilizadas. «As necessidades são distintas: pode ser uma criança que não está a adaptar-se a esta nova realidade, pode ser uma família que, de repente, passou a ter grandes carências económicas e isso vai ter implicações na atitude e reação da criança, ou seja, os professores têm o papel de, mesmo através de um ecrã de computador identificar se este ou aquele menino está com uma atitude diferente. Depois temos de atuar e perceber o que se passa», afirma Mariana. «Há dias, numa conversa com uma mãe por causa do filho que estava agitado, com dificuldades nas aulas síncronas, percebi que o problema era falta de comida. Aí, a primeira ação é colmatar essa necessidade e passei o contacto para a Mariana…» afirma Joana. Mariana continua «E as respostas que estamos a dar é no imediato, porque, muitas vezes, as famílias têm vergonha de assumir que estão no limite financeiro e tentam, até à última, nada dizer. Por isso, em muitos casos, quando sabemos que naquela família não há comida já é algo para esse dia. E damos resposta imediata. Imediata. Nenhuma criança estuda se tiver fome e ninguém tem necessidade de passar fome porque estamos capazes de dar uma resposta imediata»

«Quantos de nós já não dissemos aos nossos filhos: cuidado, não saltes porque podes magoar-te e não podemos ir ao hospital? E, então, a criança não tem o recreio da escola para saltar e brincar, não tem a rua e em casa está condicionada. E isso acaba por acumular tensão. E, por outro lado, temos os pais em casa e os miúdos acham que os pais não lhes dão a atenção que gostariam, porque embora estejam em casa também estão a trabalhar. E lá vem a culpa sobre as mães. E se há frase que digo muitas vezes é que não há supermulheres. E parece que é suposto sermos super-mães, super-esposas, super-trabalhadoras, super-professoras e nós não somos um kit espetacular de cinco em um. Não somos e isso não existe. Mas sem querer é isso que nos exigimos». Joana sabe do que fala. Ouve muitas mães. Muitos pais. Sabe bem o quanto os progenitores se sentem em falta. Mariana tem um outro nível de trabalho «Noto que existe muita pobreza envergonhada. E o nosso trabalho é, em primeiro lugar, perceber quem realmente precisa de ajuda porque há quem precise e não peça. Para quem pede, há resposta, mas quem não pede, a resposta tarda porque, primeiro, vem a identificação da necessidade. E perceber os sinais é um desafio. E nesta parte os professores têm um papel fundamental. A escola, que hoje é uma escola que funciona na casa de cada um dos miúdos, possui um papel que extravasa o passar de conhecimento. É, em si mesma, uma instituição com pessoas que estão atentas ao que se passa na casa das suas crianças. E nós, eu, a Joana e os restantes colegas da equipa multidisciplinar, estamos cá para atuar nas áreas em que a família precisa, seja financeira, seja de saúde mental, seja do que for. E sentir que ajudamos é uma sensação muito boa, mesmo muito boa».